Quem sou eu - Nasci em São Paulo, e adotei Curitiba desde criança, pois adoro esta cidade.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O MEU AVÔ - parte 2

As  lembranças foram fluindo e não poderia deixar de  registrar um dos mais belos momentos da minha juventude. Minha homenagem continua...

Meu avô gostava muito de escrever. Escrevia e muito. Ensaios que lhe ajudavam nos seus trabalhos jurídicos.

Era advogado, jornalista e político, tendo sido vereador e deputado federal. Sua paixão era a do jornalista. 

Eram as suas crônicas diárias, publicadas no jornal local, Diário da Tarde,  que o entusiasmava. Vibrava ao lê-las! E o fazia religiosamente após o almoço, com um charuto na sua pequena boca.

Nesse dia a dia, durante a leitura da edição vespertina do jornal, quase sempre acontecia uma cena cômica: 
Meu avô abria as páginas do jornal,  aproximava-as de seus olhos já vestidos com aquelas grossas lentes, compenetrava-se nas leituras das reportagens e do seu próprio artigo. Esquecia do seu “havana” e dava um "furo" nas notícias com o braseiro do seu charuto.

Minha avó, vendo o perigo eminente, complementava esta cena, chamando atenção do meu avô para tomar cuidado:
- Barrozo! As cinzas vão manchar o seu terno, isso se ainda não fizer um furo na calça!

Acontecia o vaticínio e as cinzas caiam-lhe sobre as roupas e sob os reclames da minha avó, espanava-as com o dorso das mãos fazendo com que os resíduos daquele charuto grisava o linho da sua fatiota. 

Numa pequena sala íntima da casa, composta de um grande rádio, de cadeira de balanço e de uma poltrona de couro, acontecia as notícias. Era o momento do respeito e do silêncio. Somente ao rádio dava-se o direito de "falar" sempre com um chiado característico das ondas médias, vindas diretamente do Rio de Janeiro - Rádio Nacional. 

Após o jantar, religiosamente, meu avô sentava na poltrona e minha avó, na cadeira de balanço. Suas mãos trançavam os fios de lã, cujo desenrolar do novelo acompanhava os suspenses da rádio-novela. Já meu avô, lia um livro e pacientemente aguardava as notícias pelo "Reporter Esso" cujo slogam era "O Primeiro a Dar as Últimas Notícias" e "Testemunha Ocular da História". 
O Reporter Esso dava as notícias do Brasil e do mundo e era o mais importante noticiário brasileiro, começava pontualmente às 20 horas. 

Assim ficavam o casal a escutar o rádio com suas informações e novelas. 

Nós brincávamos ao pé da escada que saia no canto da pequena saleta, que levava aos quartos do sótão.Não nos atrevíamos soltar uma só risada ou emitir um único som. 

Num dos dias, meu avô chegou em casa quieto e cabisbaixo. Fez alguns comentários e trancou-se no escritório. Jantou sem trocar uma única palavra e foi à sala íntima. Sentou-se na poltrona e aproximou-se do radio como quisesse abraçá-lo.
Minha avó fez sinal para que não se fizesse nenhum barulho e nos afastássemos daquele lugar.
.
O rádio emitia um chiado que abafava a voz grave do locutor do Repórter Esso.  Era a notícia do suicídio do Presidente da República, Getúlio Vargas.

Não entendia o significado daquele acontecimento, mas percebi lágrimas nos olhos do meu avô e o balançar de cabeça como que negasse aquela tragédia.

A casa se fez silêncio!

Ele levantou-se e foi ao escritório. Debruçou-se sobre a máquina de escrever que emitia um triste tilintar e o batido surdo dos dedos nervosos nas teclas transformava as letras frias num desabafo, que com certeza, no dia seguinte, iriam engrandecer as páginas do Diário da Tarde. 

O alegre e o triste me fez refletir sobre aquela figura que iria me influenciar por toda a minha vida. A simplicidade de pessoa e seus sentimentos puros traziam o exemplo do homem e do avô.

Era um grande jornalista e como tal, ferino nas letras. Aí daquele que lhe era adverso, virava seu algoz.

Contava um dos meus tios, que ele,  indicado a uma função pública, sentiu falta da presença, na sua posse, daquele que lhe era credor da indicação. Não teve dúvidas em excruciá-lo na sua coluna do dia seguinte.
Quase perdeu o cargo, não fossem os amigos e as trocas de desculpas que amenizaram o fato. 

Citava Ruy Barbosa, de quem era seu ardoroso fã. 

Meu avô nasceu no Rio de Janeiro, era o que hoje seria chamado de assessor de imprensa do Presidente da Companhia de Navegação Lloyd Brasileiro. Diziam que quando lhe era dado oportunidade ia até o Senado visitando o gabinete do Senador Ruy Barbosa.

Destacado nas lides políticas da república, sua personalidade é traçada como a de homem público e de jornalista combatente e impetuoso, porém, verdadeiro defensor dos fracos perante os poderosos.

Paranaguá lhe chama e é a própria paixão pelo jornalismo que aceita ser o editor do Diário do Comércio de Paranaguá. Fica longe do centro do poder federal mas mantém a convicção de seus princípios.

Como homem dado à política fazia  seus discursos dando o norte à liberdade da imprensa, à democracia e à distribuição equitativa da riqueza nacional.    

Manoel Ribas, interventor no Paraná, o trouxe a Curitiba como Chefe de Polícia. Havia-lhe sido um crítico veemente. Posteriormente se tornariam grandes amigos.

Quando caminhava nas ruas do centro de Curitiba, trocava de calçada para evitar encontrar-se de frente com um adversário político. No entanto, saudava seus amigos tirando o chapéu e acenando vigorosamente.
Por outro lado, o encontro com um partidário, era motivo de ruidosa saudação, que por certo, terminaria num cafezinho, comportamento tradicional na cidade. 

Mal dei por mim, já percorria o corredor lateral daquela casa que dava acesso à cozinha. A porta aberta, fui saudado carinhosamente pela minha avó, que logo me ofereceu um cafezinho, enquanto dava os últimos arremates na limpeza do pós almoço.

Logo ela indicou-me o caminho da sala e falou  baixinho:
- Vai ter com seu avô, ele vai ficar feliz com a sua visita. Está um pouco mais debilitado pela doença.

Entrei na sala, as janelas semifechadas deixavam o ambiente escurecido. Meu avô estava sentado na poltrona de couro, as pernas cobertas com um leve cobertor, rosto pendente a um cochilo, tiravam-lhe a feição do grande homem que era.

Sorrio-me com os olhos e falou-me carinhosamente:

- "Meu neto, senta aqui ao meu lado, pois temos muito a conversar! Você está iniciando a sua vida, passou no concurso do Banco, e este é o seu primeiro emprego. Meus parabéns. Você não imagina como estou orgulhoso de você e muito feliz. Sei que seus caminhos serão traçados da melhor forma possível".
E continuou, após uma pausa como se fosse para recobrar suas forças:

- "Agora vai poder comprar os remédios para mim. Eu os tomo muito. Falou-me do Instituto dos Bancários, o IAPB (que depois foi sucedido pelo INSS) que havia uma farmácia cujos medicamentos eram sempre vendidos abaixo dos preços do mercado".

Ora falava-me sobre o sistema bancário, ora dizia-me da política paranaense, dos seus tempos, do jornal e de seus escritos. Informava da dificuldade de escrevê-los.
Olhava-me e sorria o sorriso dos mestres.

Eu não tirava os meus olhos dos seus e como um discípulo abnegado, escutava a cada frase que ele pronunciava.
Enchia-me de orgulho!

Quando parava suas falas, meus pensamentos fugiam ao passado, as imagens iam se sobrepondo.

Estava diante daquele grande homem e que naquele instante acolhia um rapaz sonhador, que imaginava percorrer tantos caminhos, tantas aventuras!

Continuava a olhar aquele velhinho com ternura, respeito e admiração.

Havia caído a barreira do tempo!

Saí daquela casa leve, como que se pisasse em nuvens. Desci as escadas e deixei o navio de piratas para traz do pequeno portão.

Uma nova vida abria-se pela frente.
Comecei o meu trabalho. Pena que não deu tempo para comprar os remédios...
Dez dias depois, ele viria a falecer!
.
Ficaram minhas lembranças...

O MEU AVÔ


Era um dia de janeiro, não de qualquer ano, mas de um tempo todo especial. Encaminhei-me para avenida, que antes era uma rua, larga, calma e arborizada. Tinha o cheiro de um bairro gostoso.

Encontrava-me diante de uma casa, com traços de uma arquitetura dos anos 40, onde desenhava uma pequena varanda, sob um arco mesclado de tijolos à vista. No telhado, as telhas já não mais vermelhas, desbotadas pelo tempo, e dali surgia uma janela, no formato de uma capela, que denunciava a presença de um sótão habitável.   

Da calçada, parecia que ela estava numa colina intransponível, não fosse o pequeno portão de ferro, que se abria a uma velha escada de cimento pintada de vermelho.

Era a casa do meu avô!

Fora chamado a seu pedido. Uma ligação telefônica,  havia percorrido uma dezena de interlocutores, para ali me levarem.
Não sabia o porquê daquele chamado. Para mim soava estranho e tinha até um aspecto solene.
Mas a curiosidade e a ansiedade faziam bater mais  forte o meu coração.
Antes de iniciar a subida por aqueles degraus, senti uma sensação de que estava frente a frente com o presente e o passado.

Estava me vendo criança rolando pelo gramado e me atirando às aventuras de pirata, naquele navio, que era a varanda sobre a garagem. Dali via a imensidão dos mares e dos tesouros guardados na minha imaginação.
Sem mesmo hesitar deixei-me mergulhar nas lembranças da infância e fui percorrendo os tempos de férias vividas naquela casa.
Às vezes tornava-se um castelo de reis, rainhas e cavaleiros, vividos com primos e primas que surgiam nas tradicionais reuniões da família.

Era tanta brincadeira que ao findar do dia desmaiava de cansaço, não antes de um refrescante um banho de verão seguido de um lanche de pão - o pão d'água quentinho untado de manteiga colonial, e café com leite. Só em Curitiba existia aquele tipo de pão!

Por outras vezes, aquela moradia virava uma fortaleza  com  canhões construídos com galhos de árvores espreitados à rua.
Embalava-me nas delícias do passado.
Das tardes e noites, eu só conhecia as mais puras e criativas diversões. 

Uma buzinada me trouxe a realidade e empurrou-me ao primeiro degrau.

Queria imaginar o conteúdo da conversa....

Meu avô não era uma pessoa sisuda, pelo contrário, sua feição era tranquila, de homem de bem com a vida.  Seu rosto redondo, com boca pequena se perdia entre suas grandes bochechas. Seus olhos sempre estavam por trás de uns óculos com lentes bem grossas.
Vestia-se sempre com terno claro, no verão o de linho e no inverno de casimira ou de lã. O sapato marrom acompanhava-o nas suas passadas.  
Sua voz era calma e falava pausadamente, poucas vezes o vi perdendo a paciência.  Nem tampouco aos gritos.

Com gesto carinhoso afagava minha cabeça e repetia este gesto com todos os seus netos. Não era de puxar conversa conosco.
Nós olhávamos aquela figura com respeito e admiração!

Inteligente e dado às leituras costumava tecer longos comentários sobre elas. Lia os compêndios jurídicos, pois era advogado. Procurava, também,  os livros de análise sociológica e fazia comparações com a vida de então.

Lembro-me, quando brincava numa pequena sala, ouvia-o falando sobre alguns livros que tinha lido. Numa das vezes, comentava com um de seus filhos, meu tio Ruy,  sobre o sertanejo nordestino. Falou da atrocidade da guerra, da fome, das crianças morrendo e da pobreza daqueles que moravam na região de caatinga. Fiquei muito impressionado com aqueles  detalhes que iriam ficar para sempre na minha lembrança.
Mais tarde descobri que o livro, motivo de seu comentário, era o clássico da literatura brasileira:  “Os Sertões” de Euclides da Cunha. 

Deixo ao lado as palavras e perco-me na saudade do meu avô, e como compromisso, prometo a mim mesmo, que amanhã, continuarei os meus devaneios e a minha homenagem ao meu avô Roberto Barrozo.

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Dia do Amigo (20/07)

Meus  Amigos
Curitiba recebeu-me em 1961.
Vinha de São Paulo,
Tinha primos, mas amigos, quem os seria?
Mas, o destino sempre nos surpreende!
Surge nos bancos escolares,
Do Colégio Santa Maria, 
Episódios mais marcantes da minha vida:  
Conheci os meus amigos!
Poucos é bem verdade, 
Mas que me acompanham até hoje, 
Assim o serão até o final dos tempos!

Saudação, Felicitações, Abraços....
Quero muito mais.
Vou ao Infinito buscar a inspiração,
Para homenagear, para brindar...
Castelos os construirei em sonhos,
Mas, Sonhos não os poderei, nem mesmo imaginar
Pois são seus, e como tal, só você poderá os sonhar.
Sonhos...
Ah! Até que muitos deles acompanhei!
Hoje, o que posso desejar 
É que tenha os mais belos sonhos,
Que a imaginação possa criar.
E desejo mais, meus grandes amigos,
Em forma de uma oração silenciosa, mas poderosa:
- Que estes teus sonhos sejam sempre realizados!
Agora sim , posso brindar a tua vida,
Dar-lhe um grande abraço,
Desejar-lhe muitas Felicidades .
Pois este é o seu dia: o Dia do Amigo!

Obrigado amigos por vocês existirem!


terça-feira, 19 de julho de 2016

Um Jornalista e a Comunicação Social



João Ciro Saraiva de Oliveira  
Ciro Saraiva, como era conhecido, começou cedo no jornalismo. Aos 15 anos já escrevia para o jornal O Estado. Sua paixão era o futebol e em Fortaleza, logo se tornou um radialista desportista atuando nas rádios Ceará Rádio Clube, Dragão do Mar e Uirapuru. 
Alegre, comunicativo adorava o carnaval e por duas vezes foi Rei Momo, em Fortaleza. Aproveitava-se dessa sua alegoria para provocar os políticos da época, principalmente seus desafetos.
Como jornalista aproximou-se da política tendo exercido o cargo de Secretário de Estado de Comunicação Social nos governos de Manoel de Castro e Gonzaga da Mota e ainda participou no Governo de Tasso Jereissati.
Gostava da política, mas era um combatente aos desmandos e a exploração, pelos políticos, da seca nordestina.
Poeta e articulista escreveu muito sobre as agruras do sertanejo e da miserabilidade provocada pela seca.
Em 2011 lançou o livro “Nos Tempos dos Coronéis” que relata fatos da política cearense durante o Regime Militar e casos de 1960 a 1986. O livro teve duas sequências, “Antes dos Coronéis” e “Depois dos Coronéis”. A trilogia narrou fatos marcantes da história cearense nos últimos 55 anos.
A eleição de um novo Presidente da República, e tudo levava a crer que seria Tancredo Neves, abria a expectativa da liberdade de imprensa e portanto novas relações da imprensa com os governos.
Os Tempos em que Ciro Saraiva viveu de perto, na imprensa e na política, muitas vezes cercado pelas paredes palacianas, fez com que idealizasse o 1º Encontro de Secretários de Comunicação Social, em Fortaleza, em junho de 1984. Com a eleição de Tancredo incentiva a realização do II Encontro, no Paraná. Assim se expressaria Ciro Saraiva na abertura do II Encontro de Secretários de Comunicação Social: 

 "Por ocasião do nosso I Encontro realizado em julho do ano passado, em Fortaleza, dizíamos que, apesar de sua relevância, o setor de Comunicação Social foi sempre omitido do planejamento oficial, dando-lhe, paradoxalmente, contornos de atividade marginal ou secundária na formulação das estratégias governamentais.

Não caberia aqui examinar se esse fenômeno se deve à antiga conceituação de que o Governo e Imprensa sempre estiveram em posições antagônicas. Para muitos administradores – e isso ainda hoje ocorre – os repórteres estão sempre contra eles. Recentemente, li uma declaração de um Secretário de Estado norte-americano, de que os jornalistas estão sempre procurando noticiar algo que vai estragar as coisas.

Sem pretensões ao pioneirismo, mas consciente da importância da Comunicação Social, o governador Gonzaga Mota, do meu Estado, preocupou-se em contribuir para resgatar essa situação. E ao lançar um programa específico para sua Secretaria, decidiu tratar a Comunicação Social como um investimento de natureza e retornos sociais. Como estimulador da vontade coletiva para a consecução dos grandes objetivos governamentais, como via de mão dupla: informando as tendências e o comportamento do público. Também fornecendo indicadores para os necessários realinhamentos, alterando Governo e Povo nas posições de emissor e receptor.

O Encontro de fortaleza, realizado com a participação de 17 Estados, serviu, sobretudo, para uma tomada de consciência sobre alguns problemas que nos desafiam. Somos todos profissionais prestando serviços, eventualmente, ao Governo. 

A exata noção da circunstanciabilidade dessa situação nos conduz a necessidade de fazermos o melhor, de contribuirmos, de algum modo, para o aperfeiçoamento dessa difícil. atividade. 

Da correta aplicação dos recursos disponíveis à livre manifestação dos veículos e da necessidade de se dar às campanhas publicitárias um cunho educativo, informativo e social; 
A recomendação de acordos operacionais entre as Secretarias, sem esquecer o problema do “release” e a delicada situação do jornalista que trabalha para o Governo e para a iniciativa privada ao mesmo tempo - foram os temas abordados e discutidos. 
Não diríamos que foi detidamente examinado. Para sermos sinceros, os temas propostos tiveram uma apreciação, diríamos epidérmica. O que, de nenhum modo, invalida o esforço realizado, porque aquela era a primeira vez em que nos reuníamos, diferentemente do que vem ocorrendo, sistematicamente com os Secretários de outras áreas.

Estou convencido da necessidade de aprofundarmos esse debate. Não há dúvida de que ele nos dará uma visão mais ampla da realidade. Cada um tem aqui uma experiência pessoal a testemunhar e a partir dela, todos poderão contribuir para a fixação de diretrizes. 
Parece-me construtivo saber como se comportam, por exemplo, meus companheiros do Paraná e do Piauí, a respeito de um problema semelhante que enfrento no Ceará.
Este II Encontro é uma outra oportunidade que temos para isso. E seria incorreto, de nossa parte, esquecer que essa nova oportunidade se deve a clarividência do Secretário Dalcanale, apoiado, naturalmente, no merecido prestígio que lhe dá o governador José Richa e no reconhecimento que aqui também se pratica a comunicação social.

Se Fortaleza já deu resultados, Foz do Iguaçu pode torná-los muito mais expressivos. 
Mas creio que a própria velocidade da comunicação e a importância que ela teve e terá no processo de mudança que ora vive o País, exigirá de nós uma postura mais firme e um ritmo mais trepidante. 
Por isso, penso – e aqui fica lançada a ideia – a criação de um Fórum de Secretários de Comunicação, com a participação de um determinado número de Secretários, aqui escolhidos, para se reunirem, digamos semestral ou trimestralmente, a exemplo do que já fazem titulares de outras pastas. 
Seria um órgão capaz de definir conceitos e estabelecer diretrizes a partir dos temas aqui levantados. Submeto aos companheiros, essa proposta, que poderá servir para o fortalecimento do setor, na verdade necessário ainda para assumir um papel da maior importância no contexto dos governos. Pediria para isso, que fosse constituída uma Comissão capaz de estudar a viabilidade da ideia, que, na verdade, não está pronta nem acabada, mas apenas esboçada".
  
JOÃO CIRO SARAIVA DE OLIVEIRA era natural de Quixadá, onde nasceu aos 23 de fevereiro de 1938, filho de Raimundo Cristino de Oliveira e de Amanda Saraiva de Oliveira. Atuou como radialista, jornalista e escritor. Faleceu em Fortaleza aos 78 anos de idade, no dia 27 de junho de 2015.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Os Anos Dourados II

Estávamos reunidos, no pequeno bar da esquina, final da tarde, ao som de um violão, curtindo Elis, entre acordes da Maisa, do Tom e Vinícius. Era o “dolce far niente” de um início de mais um final de semana primaveril. Troca de olhares, gestos carinhosos, querendo anunciar um novo romance e o sonho do sonhar puro, poético, do amanhã não sei fazendo o quê.
Entra, chorando forte e tremulo o nosso amigo João. Em sua mão, um papel, marcado por manchas de sangue e amassado, como um maço imprestável arremessado ao lixo.
Era contexto que ecoaria nos gritos de dor por anos, no derramamento do sangue dos gentios e maculando tantas famílias. 

Entrega-me e busco uma coragem de lá de dentro e começo a ler pausadamente a cada palavra:

Escrevo para que o tempo passe e a angústia diminua. Cada barulho é um sobressalto e minhas lembranças são invadidas pelo terror.
 É mais um dia que se passa e há mais de uma semana que estamos escondidos, eu, o Carlos, meu irmão gêmeo e o Robson.
Até ontem, Danilo nos trazia comida e água. Mas desde hora do almoço, não mais apareceu.
Estou com medo que algo tenha acontecido com ele.
Desde daquela reunião do diretório estudantil, que estamos
sendo seguidos. Danilo foi alertado e soube que outros companheiros foram presos e torturados. E a partir daí, ele vem despistando e tomando muito cuidado para nos trazer água e alguma coisa para comermos.
Temos que ficar escondido e não vejo a hora de fugir, atravessar a fronteira e chegar ao Chile.
Não sei como fazer, mas estou apavorado!
Engraçado estou começando a ficar com fome,  com sede e um mal pressentimento! Está escurecendo!
Opa, escuto um movimento, gritos e um barulho...
É  o Danilo que entra gritando, esfarrapado, empurrado por uma corja de ... mas o que é isso...uma rajada de metralhadora o derruba no chão. Carlos se levanta e é atingido... meu irmão, leva um tiro na cabeça.......
Cho.... é o nos........”

A noite se faz silêncio!
O ambiente enche de choro e lágrimas e a dor envolve-nos, os corações gritam e o papel, assinado em gotas de sangue, desaba no chão, como se acompanhasse o corpo do irmão do João, tombado pelas balas calando os sonhos de um jovem sonhador. 
Aquela carta como um testamento, havia surgido do nada na casa do João. Um único documento da morte dos irmãos, cujos corpos jamais foram encontrados.
Terminou a noite e desfez-se o sorriso delicioso da juventude.
Naquele instante, encerrava o conto de fadas.
Os anos dourados continuaram talvez, já não tão dourados. Havia um descompasso com o desconhecido.

Este foi o lado cruel de uma revolução que nasceu nos braços do povo contra os comunistas que também estavam matando.
Foram poucos ou foram muitos, mas a verdade é que acabaram roubando a alma dos meninos-crianças que queriam sonhar os outros sonhos das quais as canções queriam falar.
Talvez não foi tão dramático quanto as mortes que aconteceram nos outros países sul-americanos. 
Mas, a juventude que viveu na década de 70 começou a crescer marcada pelo silêncio, alguns pela dor e pelo medo. Isso as levou à alienação política. 
Não lhes foram permitidos mais reunirem-se para desenvolver as suas aptidões de liderança que brotavam nos centros acadêmicos. Era no desenvolvimento da política estudantil que germinavam os grandes líderes políticos.

Um crime foi cometido e tamanha foi a sua crueldade que destruiu gerações de jovens, que hoje poderiam ser os vanguardistas de uma nova política brasileira.
Tenho a certeza de que a consequência maior deste atentado aos jovens foi a manutenção dos atuais políticos, que manobraram o poder naquela época e hoje se posam como heróis, desfrutaram e desfrutam das benesses e beberam do cálice do sangue de todos os inocentes.  
E ainda hoje desfilam como poderosos e mantém-se no poder como se dele fossem donos.

Um reinado ditatorial sem alternância de novos pensadores!


segunda-feira, 11 de julho de 2016

Os Anos Dourados I

O cenário era a avenida principal que dava ao centro executivo político de Curitiba.  A multidão se aglomerava ao longo daquela via, como uma serpente movimentando-se lentamente sobre o chão árido, negro, áspero do asfalto, símbolo do progresso e porque não da derrocada dos  naturalistas que por certo, apreciariam as pedras irregulares, excelente filtro das águas de chuva.   
Povoação como aquela, há muito não se via, ou melhor, nunca se tinha visto, a não ser quando do Congresso Eucarístico Nacional, em 1960.
Crianças se alvoroçavam sem entender o motivo daquela concentração. Presas às mãos de suas mães, que ali estavam com o mesmo entendimento de seus filhos.

Os homens pareciam soldados marchando para as batalhas de Dom Quixote, em meios a edifícios, monstros de concreto, cujas sombras pareciam garras querendo aterrorizar os pobres lanceiros, que buscavam a todo custo atacar os dragões ateus, ferozes, famintos e hediondos. Assim eles imaginavam os inimigos comunistas. 

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Ao mesmo tempo a Igreja Católica alertava que os “demônios vermelhos” estavam prontos para destruírem a sociedade cristianizada e para devorarem os seus nascituros. 
Todos, da pacata e crédula sociedade curitibana e de seus arredores, atenderam aos chamados dos padres e dos políticos, plantonistas de guarda da democracia brasileira, que usando da imprensa, intimidavam a que participassem da “marcha da família com Deus pela liberdade”. 



Manifestações semelhantes aconteceram em outros centros urbanos. Eram episódios que determinavam a posição dos brasileiros, principalmente da classe média, em relação ao “comunismo vermelho”, movimentos liderados pela Rússia e Cuba, assolava a Nação e aos seus cidadãos, que temiam a invasão em suas terras e até mesmo de perderem seus patrimônios residenciais. 

Esses movimentos acudiam aos contrários à ordem pública, provocados pelas organizações denominadas de esquerda, responsáveis pela introdução do culto ateu e materialista nos corações dos cristãos brasileiros. As figuras do chamado novo sindicalismo e da reforma agrária, com apoio do Presidente Jango, assustavam a população.
A propaganda maciça americana, somado as injunções comunistas e os atos de um governo que queria implantar o socialismo de esquerda no Brasil formalizou o chamamento do Exército para a defesa do povo da Mãe Pátria. Ação esta apoiada por quase todas as instituições brasileiras, incluindo OAB, Igreja, Partidos Políticos, Associações de Classes tanto as empresariais como a de empregados.

Este era o sinal dos tempos, além de um medo crescente de uma eclosão nuclear, produzida pela guerra fria entre as duas nações dominantes no planeta Terra (Estados Unidos e Rússia).

No dia 22 de outubro (1962), o presidente John Kennedy denunciou, em pronunciamento pela televisão, a existência dos mísseis russos na América Central. "Essas rampas não devem ter outro objetivo que o ataque nuclear contra o mundo ocidental", declarou.
Para ele, a transformação de Cuba em base estratégica, com a instalação de armas de destruição em massa, representava uma ameaça à paz e à segurança do continente americano. "Nem os Estados Unidos nem a comunidade internacional irão se iludir e aceitar esta ameaça", advertiu.
Ainda no mesmo dia, os EUA decretaram um bloqueio naval contra a ilha de Fidel Castro e deram um ultimato à URSS. Kennedy exigiu do chefe de Estado Nikita Khruchov o imediato desmonte das rampas, a retirada dos mísseis e a renúncia à instalação de novas armas ofensivas em Cuba. Washington advertiu também que, caso o bloqueio fracassasse, a ilha seria invadida.
ONU contorna ameaça de guerra
Qualquer transgressão do bloqueio por navios soviéticos poderia desencadear a guerra entre as duas potências atômicas. A Organização das Nações Unidas ofereceu-se para mediar. A crise foi administrada e acabou sendo contornada. No dia 28 de outubro, Khruchov cedeu à pressão norte-americana, retirando os mísseis e admitindo uma inspeção da ONU. (dos jornais da época)
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Neste momento, a Rádio 100 colocava a música dos Incríveis e o locutor anunciava com grande estilo e colocava no ar: - “Era um Garoto que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stone”, e em seguida alardeava: - “em primeiro lugar: “As curvas da estrada de Santos”, de Roberto Carlos”.  
As músicas tinham o ritmo certo e deliciavam os ouvidos. Até hoje, exercem a magia de anestesiar os conflitos, causando prazeres indefinidos e nos levando a movimentos dançantes e saudosos, como se ainda fossemos os jovens de outrora. 
Os embalos aconteciam no sábado....



Os “Beatles” faziam o pano de fundo que engessavam a juventude em terninhos sem gola, cabelos compridos, porém bem penteados, que modelados pela música, embalavam-se no irrealismo de fadas e de inocência daqueles anos. 

A jovem guarda, ginasiana por excelência, curtia as poesias simples e românticas das notas musicais, entre namoricos bem comportados, nos portões da rua, onde a troca de beijinhos era uma permissividade consentida.
Tudo era “direitinho”, principalmente nos bailes de debutantes, quando as meninas faziam 15 anos.
Nos salões dos clubes, muito bem iluminado, as meninas-moças da classe média, desfilavam seus vestidos de branco  entre miçangas e paetês, sem falar em cabelos armados e provavelmente penteados por  “cabelereiros-arquitetos”. 
Bailavam ao som da valsa de debutantes nos braços de seus pais, que gentilmente as cediam, sob o olhar complacente das avós, aos garots vestidos de um terninho bem caído ao corpo, gravata fina, colorida, enfeitando sua camisa branca, isso quando não era uma gravata borboleta.  
No entanto, alienados aos problemas de seu País.
Os mais velhos, já universitários, vivendo nos centros urbanos, nas capitais tinham um comportamento mais arredio. Talvez, sentiam-se sufocados de não poderem se manifestar.

A classe universitária confrontava-se entre os ritmos das músicas importadas, roqueiras e a cadência colorida do tropicalismo e da bossa nova, que abriam espaço para um novo patamar à música brasileira. Ainda que sob a censura, cantarolavam  nos botecos, ao som de fumaças de cigarro e o dedilhar dos violões as melodias que gritavam pela liberdade.
A música brasileira era o compasso da contradição  e que de algum modo, nas entrelinhas, desafiavam os senhores coronéis e os criativos censores dessa época, que eram capazes de “ver” frases desafetas no próprio “Pai Nosso”.
Chico Buarque clamava “Pai, afasta de mim esse cálice...”, Gilberto Gil, girava a “Construção” e  Caetano caetaneava entre as vozes marcantes de Maria Betânia e Elis Regina.
Elis "Pimentinha" Regina e Jair Rodrigues

Essa juventude madura ainda era o resquício da liberdade de outrora. Anteriormente discutiam política nos centros acadêmicos, nas salas das Universidades, no meio às experiências de Química ou entre as equações indecifráveis da Matemática. Os de Direito eram os mais invasivos. Alguns representantes estudantis já estavam contaminados por ideias comunistas, outros sonhavam com novos tempos e outros buscavam as  reformas políticas.
Enfim discutia-se política, discutia-se o Brasil.
No entanto calaram a juventude, calaram a renovação da política brasileira, que até hoje convive com este maior pecado.

Os festivais da canção, nos auditórios da TV Record, criavam a arena das torcidas que deliciavam os neotelespectadores da telinha preta e branca, que dessa forma, podiam pelo menos extravasar suas opiniões.  
O futebol encenava o maior país da Terra e nas taças das Copas do Mundo, o ópio da vitória entorpecia a população: “P’rá Frente Brasil, salve a Seleção”!


Notícias? As mais sérias só a do Ibraim Sued, principal colunista social da imprensa tupiniquim e as receitas da cozinha brasileira. Estas figuravam como manchetes nas primeiras páginas dos principais jornais do Brasil, escondendo a vergonha da censura.
Condescendência da censura às reais notícias que aconteciam no País e no mundo. Eram proibidas de serem ventiladas ou comentadas. 

A cuba-libre, misturava Coca-Cola com rum, inundavam os saraus dançantes e a musica continuava como que dando cores àqueles cenários dourados, como nos palácios franceses, em festas, antes da “Bastilha”.