Quem sou eu - Nasci em São Paulo, e adotei Curitiba desde criança, pois adoro esta cidade.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Quero ver mais que uma Mulher

“Quero ver mais que uma Mulher” –
poesia que escrevi para minha esposa
em homenagem ao Dia da Mulher!

Quero ver mais que uma mulher,
Pulsando o coração no peito
Sentindo a imensidão do seu ser,
Na doação do mais puro amor.

Quero ver mais que uma mulher,
Mostrando o brilho nos olhos,
Trazendo nas profundezas da alma,
A verdadeira mensagem da Vida.

Quero ver mais que uma mulher,
A companheira de todos os tempos,
De todos os momentos,
Construindo sonhos que sonhamos juntos.

Quero ver mais que uma mulher,
A sublime mãe acolhedora
Indicando o verdadeiro futuro,
Aos nossos dois maravilhosos filhos.

Quero ver mais que uma mulher,
Muito além do conhecimento,
Sua competência transformando o toque
Na integração da existência.

Quero ver mais que uma mulher,
Sentido suas mãos nas minhas mãos
No caminhar da esperança,
Na pureza de sua grandeza.

Mas também quero te ver mulher,
Vendo a sua beleza,
Sorrindo com os seus olhos,
Ouvindo de seus lábios palavras de amor.

quinta-feira, 1 de março de 2018

O Menino e o Livro

Naquela manhã, o tempo estava instável, era outono, uma pequena garoa insistia em molhar a janela.
Fazia algum tem que havia amanhecido, mas o aspecto cinzento deixava o menino com aquela vontade de querer dormir mais. Ainda mais que naquele dia...
Fernandinho acordou com os olhos dormindo, e fazê-lo sair da cama era um ato de bravura que sua mãe fazia todos os dias:
- Nandinho, acorda! Fernando, acorda menino! Você vai perder sua aula. Hoje tem Português e é dia de leitura... bradou sua mãe já quase sem paciência.
Nandinho resmungou, virou para outro lado:
- Eu não sou Nandinho, sou Fernando! Aliás, não sei por que me deram este apelido tão diminutivo... Pô.
Com certeza o diálogo iria se transformar numa infindável discussão. Sua mãe, sem perder tempo, puxou o cobertor e o fez levantar ligeirinho, sob pena de algumas ameaças terríveis – como ficar sem celular.
Nandinho, digo Fernando, não gostava daquela matéria e também não tinha nenhuma afinidade com leitura de livros. Achava uma chatice! Mas o computador, ah! Esse sim era uma maravilha, e se seus pais não dessem limites, ficaria ali, frente a frente com aquela telinha e o tempo, com certeza, não existiria mais.
Nandinho, bem... Vamos continuar assim, afinal por mais crescidinho que estava ficando, ainda estava com seus belos 14 anos.
Foi à Escola, resmungando como era de costume e em sua face estampava um mau humor incabível.
Mas, na realidade não se sentia bem, era diferente dos outros dias. Sentia um dorzinha de garganta, um mal-estar.
É claro que colocou a culpa no “Português” e nem adiantaria falar com sua mãe, pois acharia que era uma desculpa para não ir à aula.
Entrou na sala de aula. Seus colegas estranharam sua quietude. Postou-se na última carteira e desceu sua cabeça sobre seus braços e adormeceu.
Nem percebeu a entrada do professor de Literatura.
O professor foi até ele, pronto para lhe dar uma bronca. No entanto ao notar a respiração do rapaz, o acordou e de imediato colocou sua mão na testa. Estava muito quente. Mandou-o à enfermaria do Colégio.
Não demorou muito para que seu pai viesse buscá-lo. Preocupado, abraçou com um braço e levou-o para casa.
Sua mãe deixara o serviço e foi acolhê-lo.
Fernando, com face vermelha, ardia em febre. Tomou os remédios recomendado pelo médico e voltou à sua cama. Onde, na realidade, ele achava que não deveria ter saído.
O seu quarto não era muito grande. Uma janela sobre uma escrivaninha iluminava o ambiente, dividindo-o de um lado a cama e do outro um armário embutido, com espaço aberto para uma estante. Nessa estante, alguns livros, quase não lidos e ali permaneciam a espera de um leitor aventureiro.
Já deitado, procurando fugir do mal-estar, Fernandinho ficou olhando o teto, absorto.
Aos poucos uma nova sensação tomou-o de susto... Estava encolhendo rapidamente. A cama lhe parecia imensa e o quarto tomava dimensões enormes. 
Escalou o travesseiro e sua voz, mesmo gritando, era tão baixa que não alcançava a distância que o separava dos pés do armário.
Os livros passaram então a voar pelo quarto e a sobrevoar sua cabeça.
Ele continuava a diminuir. Até que um livro aberto tombou sobre ele.
“Sonhos de uma Noite de Verão” de Willian Shakespeare[1]. Justamente o livro que deveria ter sido lido e era o tema daquela aula de Literatura.
Nandinho tentou se desvencilhar. Foi sugado por uma das páginas.
A página estava branca, sem nada, nem mesmo uma vírgula.
O garoto com medo, apavorado mesmo, começou a correr por todo aquele espaço. Tentou mergulhar na lombada, porém quase bateu com a cabeça num pequeno resto de cola. Correu para cima, para baixo e para a lateral. Eram precipícios sem fim que o fizeram se afastar das bordas. 
Sentou desacorçoado no meio da página, dobrando as pernas e apoiando sua cabeça sobre os seus joelhos.
Porém, alguma coisa o chamava no canto superior da folha. Levantou-se e correu pra lá.
Como num passe de mágica, a página virou e ele continuou correndo. Palavras, frases, escritos, figuras e tantas coisas iam passando pelos seus olhos, enquanto as páginas iam se sucedendo.
Reduziu os passos... parou em frente a um enorme castelo de pedra, com portão de ferro e em seguida uma ponte “levadiça” , que o convidava para adentrar no castelo.  
Temeroso entrou. Começou a ver pessoas com roupas estranhas, rostos fechados e trazendo uma feição de medo.
Percebeu que ele era invisível naquele ambiente.
Mais confiante foi percorrendo todos os lugares daquela construção de pedra. Era sombria. Um musgo malcheiroso empastelava as paredes. Os homens e mulheres, malvestidos caminhavam olhando para todos os lados, demonstrando que estavam realmente assustados.
Fernando, mesmo sabendo que estava invisível, tentou falar com eles. Não o escutavam!
Pode perceber que se tratavam de prisioneiros. Mas de quem?
Não demorou muito e uma gargalhada amedrontadora ecoou por todos os lados. Um feiticeiro, numa carruagem negra foi atravessando o pátio daquele castelo. Os cavalos tinham olhos de fogo e o cocheiro vestia uma túnica preta e um grande capuz cobria-lhe a cabeça, a qual não se podia ver. 
Soldados, que pareciam um exército de zumbis, abriam passagem com foices entre aquelas pobres pessoas. Algumas tombavam ao chão, decapitadas.      
O menino, tomado pelo medo, correu em direção ao portão, que estava se fechando. Atravessou a ponte e ... se viu diante de uma página branca.
Ainda ofegante, seguiu em direção ao canto superior e, logo deparou com um campo maravilhoso, onde corcéis com asas, saltitavam e voavam junto com borboletas coloridas.
Opa! Não eram borboletas, eram fadinhas graciosas que tocavam pequenos instrumentos musicais. A música encheu seus ouvidos e as fadinhas o convidavam a segui-las. O garoto não estava mais invisível.
Seguiu-as e a música cada vez mais o envolvia. Sentia-se leve. Andou por entre a relva e sentiu o perfume de jasmim que combinava com as delicadas flores, que lhe pareciam acenar com suas pétalas.
Na página seguinte, duendes conversavam com as outras fadas. Tudo era belo! Era um conto de fadas, que tanto lhe haviam contado, quando criança.
Até mesmo a roupa do rapaz havia mudado: era um príncipe.  Uma capa de cor citrino, bordada com fios de ouro que cobria sua vestimenta de camisa de seda branca, calças de couro escuro e na cintura um grosso cinto de onde pendia uma vigorosa espada.
O duende mais velho aproximou-se trazendo um cavalo branco, encilhado com sela de couro nobre, sobre uma manta onde estava gravado o brasão das terras das fadas. Ao entregar-lhe o animal, disse que o levaria a todos os reinos das aventuras que lhe era permitido imaginar.   
Tomou o corcel e galopou por entre as folhas e páginas, vendo dragões e castelos, guerras infindáveis e destemidos guerreiros, arqueiros e cavaleiros cavalgando entre montanhas, florestas mágicas e campos maravilhosos.
Fernando continuava a cavalgar entusiasmado. Havia visto animais falantes e histórias fantásticas de bichos e gentes. Andou por cidades, foi ao passado e se deslumbrou com imagens do futuro.
Bem próximo de um riacho, que banhava os campos de flores silvestres parou para dar de beber ao seu cavalo, também para descansar de suas aventuras.  Seus olhos brilhavam e em sua cabeça repetiam-se as imagens que havia visto e vivido.
Mal percebeu que estava próximo a um belo castelo. Aproximou-se dele e logo soldados o cercaram e com muita delicadeza o levaram a presença da Rei.
Intrigado achou que aqueles soldados tinham o rosto familiar. Eram parecidos com o Rubinho, Geraldo, Mário, Gabriel, Luiz e Antônio, seus principais colegas de escola. Os outros eram figuras conhecidas no colégio. Descobriu, então que estava no Reino dos Sonhos.
Entrou no Salão Principal e o Primeiro Ministro veio saudá-lo.
Ah não! Aí já era demais, pensou Fernandinho. O Primeiro Ministro era o professor de Literatura.
Frente ao trono, o então príncipe foi olhando tudo com muito cuidado e não pode deixar de notar os belos trajes da Princesa, que ao lado do Rei, se postavam a sua frente. A Princesa vestia um lindo vestido de cor azul celeste e seus cabelos dourados cobriam-lhe os ombros. Uma medalha de ouro caia sobre sua roupa, presa por uma grossa corrente de ouro.
- Pera aí! Essa medalha é igual a da Helena! Falou o garoto num rompante.
Helena era uma das meninas mais bonitas de sua classe, sua paixão secreta.
Fernando enrubesceu. Todos perceberam e um murmúrio se espalhou por aquele salão. 
Helena, digo a Princesa chamou o Fernandinho. Tomou a sua mão e beijo-lhe a testa.
E, sob olhar de todos saudou-o com Príncipe Nando, e...
Um turbilhão novamente correu o seu corpo.
.......
Fernando! Fernandinho! Acorda você precisa tomar o remédio!
- Remédio? Abrindo os olhos, o garoto olhou à sua volta percebeu que estava tudo normal e continuava na cama. Estava molhado de suor. Sua mãe, com um sorriso lhe oferecia uma colher com o remédio, que por certo lhe faria bem.
Sua mãe disse que ele havia se debatido muito, mas já estava sem febre:
- Descanse mais um pouco, esse repouso lhe fará bem. E, retirou-se do quarto.
Fernandinho, ainda atônito olhou novamente para todo o quarto. Observou a estante... e olhando para baixo, viu um livro aberto caído no chão. Era o “Sonhos de uma Noite de Verão”. 
Jamais contou essa sua aventura para alguém.
Mas hoje, Fernando, Fernandinho ou até mesmo Nandinho é o melhor aluno de Literatura.

Na verdade, um grande aventureiro!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A Vida é muito Bela

A Vida é muito bela

Que tempo fazia, 
Que importa, 
Uma estrada me levava,
Ora subida ou descida
Ora reta ou sinuosa, 
A verdade é que me transportava
Entre montanhas, vales e florestas
Ao encontro de um passado.
Na bagagem uma história de vida
De alegrias e tristezas,
De sonhos e de encontros, 
Dos ideais e dos desencontros, 

Buscava minhas raízes.
Nas confabulações das mais diversas,
Podia chamar as lagrimas de espinhos,
Que outrora me feriram;
Ou talvez a plenitude da paz trazida n´alma. 
Onde sorrisos brotavam no peito aberto.

De repente, 

Um brilho surge no inesperado
Provocam encontro de olhares 
Para a velocidade do tempo,
O passado é o presente no momento
E o encanto dos contos e dos encontros,
As mãos dadas no caminhar da estrada
O coração ri e entrega-se 
Entre sorrisos e gargalhadas
Já não há saudade daquele tempo!
As palavras ditas carinhosamente
Afagam o espirito,
Sentindo a emoção, 
Esconde-se as lagrimas!
A juventude aflora e o passado já não mais existe!
Vive-se a intensa harmonia do amanhã e do hoje,
Saudamos a vida, o momento é o agora!
Reverenciamos o viver:


A vida é muito bela!

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A BORBOLETA DO JARDIM

Que dia quente!
Arrastando-se sobre um galho de árvore, a lagarta sentia aquele calor, mesmo escondendo-se entre as folhas verdes de uma árvores na primavera.

Aquele animal, na verdade um inseto estranho, corpo coberto de pelos eriçados, duas antenas curtas e pontiagudas, cercavam os pequenos olhos saltados, que mal serviam para alguma coisa, porque só percebiam a luz.

Se não bastasse o seu aspecto repugnante, uma boca esfomeada, devoram incessantemente as folhas largas e verdes das árvores e plantas, deixando as marcas da sua voracidade.

O seu caminhar esquisito, feito por seis pares de patas articuladas, arrastando parte do corpo num vai e vem, avançando um trecho à frente e novamente contraindo, movimentando de forma desengonçada para alcançar alguns centímetros. É como se estivéssemos vendo uma mola engripada. 

Mesmo asquerosa, as lagartas tem um colorido especial. Essa tem listras amarelas e pretas sobre um corpo branco, sobressaindo pelos pretos como uma miríade de pequenas lanças ameaçadoras. Mas também existem outras, com cores diferentes, com manchas multicores sobre um corpúsculo cilíndrico.   

Que nome vamos dar a essa nossa personagem? Eu por mim não daria nome nenhum e sairia correndo, porque aquele bicho, apesar de pequeno é assustador! Comentou uma jovem, que durante uma aula de biologia, veio olhar com muita curiosidade aquele inseto excêntrico. Mas, mostrando medo, manteve  uma certa distância daquele galho. 

Seu José, jardineiro de tantos anos, recomendava aos alunos que estavam naquele jardim:- "não se aproximem e muito menos coloquem as mãos numa lagarta, é muito perigoso e pode causar sérias queimaduras". 

A dona lagarta, já que ninguém havia dado um nome, não parava de comer. Abria aquela enorme bocarra, desproporcional ao corpo, e zás... mais uma folha mordida! Não havia folha que não tivesse uma marca daquela esfomeada! 

Mas, num determinado momento ela parou de comer, como se o mundo todo tivesse parado........Torceu sua cabeça para cima, como estivesse olhando o céu e percebeu o voo de uma bela borboleta com asas alaranjadas.   
Torceu a cabeça para outro lado, e os seus seis pequenos olhos buscavam a algazarra das crianças brincando no gramado. Sabia-se que as lagartas não enxergavam, mas acredito que essa, além de enxergar, bem, escutava aquelas meninas e meninos correndo pelos jardins, no meio das flores, seguindo outras borboletas.

Um sentimento diferente passou pela cabeça daquela lagarta. Imaginou flores coloridas e as brincadeiras infantis...
Pasmada entregou-se àquela cena que imaginara e pensou – (será que lagarta pensa?): “Como gostaria de ser uma borboleta, voando entre as flores, brincando com as crianças, num corre-corre, subindo e descendo, sentindo que elas não fugiriam mais apavoradas”.

O inseto da ordem dos Lepidópteros ficou perdido em seus pensamentos e continuou comendo!

Os dias foram passando...

Um dia, acordou e já não queria comer nenhuma folhinha. Não tinha vontade de andar.  Estava sentindo alguma coisa, mas não sabia bem o que, uma esquisitice só. Sua pele estava mudando e sentiu que queria ficar só, no silêncio, com vontade de fazer um casulo em sua volta: - era a pupa.
Sonolenta e como uma ágil bordadeira, passou a tecer o seu próprio casulo. Ela não sabia, mas estava se transformando. A pupa dormia...
Acontecia o que os cientistas chamam de metamorfose. A pupa estava virando crisálida.
Passaram-se dias e semanas! Um tempo sem tempo...

Enfim acordou e intrigante devido a escuridão e o local apertado que se encontrava, percebeu que seu corpo havia mudado. Na realidade, já não sabia o que era. 
Sentia pernas, mas mal conseguia mexê-las, tinha antenas mais compridas, seus olhos diferentes e:
- Meu Deus, minha boca virou um canudinho! Ai, que fome! Assim que o animalzinho se manifestou ao sentir que já não tinha uma enorme bocarra.

“Tenho que sair daqui”, pensou, depois de perceber-se enrolada em alguma coisa que pareciam delicadas escamas.
Uma força interna se manifestou e intuitivamente tentou romper as paredes de onde se encontrava. Fez uma pequena abertura e um facho de luz adentrou naquele minúsculo ambiente. Aí teve a consciência de que tudo havia mudado.

Como se ainda quisesse compreender aquelas mudanças e ter a certeza de que estava sob controle de tudo, olhou pela fresta e teve o sentimento do belo ao observar o gramado verde abaixo e o contorno dos jardins que lhe eram comum.


Sorriu se é que com aquela boca poderia sorrir, mesmo atinando que estava pendurada no galho de sua árvore, onde comera tantas folhas.
Novamente a fome apertou e sentia-se enfraquecida: “Puxa, que fome!”
Tinha que se libertar; a liberdade era a sua vida!

Respirou fundo, tomou de todas as suas forças e com movimentos cadenciados e fortes foi rompendo o invólucro que a envolvia. Conseguiu colocar sua cabeça para fora:
- Ah, as flores! Flores? Naquele momento deu uma vontade imensa de voar, de estar junto com as flores, no meio delas e tinha certeza que ali estava o seu alimento.

Redobrou suas forças e num esforço descomunal conseguiu sair. É bem verdade que um líquido viçoso que envolvia seu corpo, auxiliou-a a ficar livre do casulo.

Rompeu e esqueceu o passado!

Olhou-se e descobriu que finíssimas membranas escondiam-se no seu tórax.  Contraiu seu corpo e um fluxo de sangue percorreu todo o seu organismo e um belo par de asas se abriu num lindo colorido que refletia os raios do sol e deixava passar as tênues cores do arco-íris.
Empinou-se, mantendo suas asas abertas sob o sol, corpo esguio, sentiu-se graciosa e como bailarina, ensaiou alguns passos e atirou-se ao ar.

Bailava ao sabor do vento, apreciava o céu e tinha consigo a liberdade, a imensidão de um mundo que desejava conhecer. 

Não havia limites, mas recobrou a consciência do cansaço e da fome que as emoções a desviaram, e deixou-se flutuar em uma flor. Suas asas tocaram as delicadas pétalas de cetim róseo, relaxou e sentiu o divino aroma do néctar – sugou-o de maneira meiga e com sutileza.

A felicidade invadiu todo o seu ser e descobriu, enfim, que agora  era uma linda borboleta colorida.

Assim, nessa alegria de vida foi de flor em flor, levando em suas patinhas o pólen para gerar mais flores.

Sentia-se uma menina moça. Passava a todo instante por uma pequenina lagoa, para se ver refletida a sua bela imagem.

Uma borboleta! Pensava. Uma borboleta com asas coloridas, como os arco-íris do céu, com pequenos desenhos entre contornos de filetes dourados.

Senhora de si, brincava com as crianças, fazendo cirandas, brincando de esconde – esconde.


Tinha a felicidade estampada no seu pequeno rosto, que se faziam brilhar em seus olhinhos. Apaixonou-se e pode assim se preparar para dar um novo ciclo de vida: botando ovos, que se transformariam em larvas, em pupa e depois em borboleta...

Será que surgiria uma outra borboleta mais bonita que essa?




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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

As duas Vidas de Severina

Severina era uma moça bonita, cor de jambo, bem tratada e mantinha sempre suas faces rosadas. Seus olhos grandes e esverdeados contrastavam com seu rosto de linhas retangulares. Seus lábios grossos davam uma graça quando sorria. Cabelos negros e compridos emolduravam o rosto.
Havia estudado até a 4ª. Série, graças ao empenho da professora Maria das Graças, que fez com que ela terminasse os estudos básicos. Isto porque a professora era casada com o delegado Justino, que ameaçava prender o pai da moça caso não deixasse ela estudar. Era óbvio que Justino agia assim por causa da pressão da esposa. 
Severina era recatada e sonhadora. Vivia em Cachoeira, um pequeno povoado do agreste pernambucano. Diferente de outras moças, Severina não plantava e nem colhia nas terras secas, áridas e já quase sem vida, e muito menos sabia ordenhar uma vaca. Ela se cuidava, por isso sua pele não sofria os maus tratos do sol esturricante.
Nas festas juninas, botava o vestido de chita, que era o mais bonito e feito por sua madrinha. Dançava graciosamente como ninguém por isso era sempre escolhida a rainha da festa. Não parava um só minuto de dançar, pois tanto em Caruaru quanto ali, os moços só queriam saber de dançar com ela.
Isso provocava ciúmes nas outras meninas. Certa vez, uma de suas amigas, ou melhor, conhecidas, avançou sobre ela e se não fosse o pessoal “do deixa disso”, a ciumenta teria estragado o seu vestido.
As moças sonhavam, não tanto quanto Severina, mas sonhavam principalmente sair da seca, da terra seca, poeirenta e sem vida, da pobreza e do feijão com farinha, quando tinha. Sempre que essas meninas podiam, iam a Caruaru, principalmente nos dias de feira, quando centenas de pessoas se amontoavam para comprar roupas, principalmente jeans. Aí elas desejavam achar um homem bonito, de outras bandas, que as levassem para longe dos seus pesadelos. 
A desgraça nunca vem sozinha. Na ânsia de arrumar um companheiro, se entregavam às promessas falsas. Logo descobriam que estavam “embarrigadas” e que o homem das promessas sumira. Quando a família descobria as colocava no olho da rua, e sem ter para onde ir, porque até a igreja lhes fechava as portas, iam para outra cidade, Caruaru ou Recife e caíam na vida.  
Severina já não! Sonhava, mas sabia o que queria, e o seu desejo era viver numa cidade grande. Nada de ficar dançando a Mazurca dos quilombolas ou trabalhando na loja de comércio do seu tio e padrinho. Não, ela quer ir longe, distante do sertão. Pensava em São Paulo ou até mesmo no tal Rio de Janeiro. Ela via nas revistas que chegavam na venda.
A moça tinha completado 21 anos e durante alguns meses foi guardando dinheiro e comprando roupas na feira da cidade vizinha. Pegou o ônibus, passou a noite, e em Recife entrou num avião (o padrinho tinha lhe dado as passagens). Assim iniciou sua aventura!
Ela escolheu o Rio de Janeiro, porque queria conhecer o mar, - “que coisa louca, quanta água, que cor de céu que nunca tinha visto”, isso falava Severina, estupefata só de ver as fotos.
...
Severina tremia mais que vara verde em dia de vento. Olhava tudo desconfiada e com muito receio.

A atendente da companhia aérea, percebendo o nervosismo da moça, acompanhou-a até a porta do avião. A aeromoça a conduziu até o seu assento, botou-lhe o cinto, o que a fez tremer mais ainda, e disse para ficar tranquila. 
Era muita gente e muitas poltronas, todas chiques. Uma porção de pessoas ocupando seus lugares, conversando e algumas até dormindo. A porta fechou. Um barulho ensurdecedor lá fora e o “bicho” vai se movimentando.  Uma voz vinda de algum alto-falante diz uma porção de coisas enquanto a aeromoça mostra o que fazer em caso de emergência. – “Virge, alguma coisa vai dar errado...!” .
Severina olha pela janela. O avião corre e num sacolejar sai do solo, e... - ”ele tá voando!” Ela começa a ficar meio zonza, as mãos suando e a pessoa do lado, um senhor de meia idade, lhe pergunta se é a primeira vez que está voando. A moça diz sim com a cabeça e a pessoa lhe diz para não ter medo.
Vem a aeromoça e lhe entrega uma bandeja com sanduiche, pergunta se quer suco ou refrigerante, ela pede um suco. Adormeceu...
Quando acordou o avião já estava descendo, e pode rapidamente ver a extensão do mar e a quantidade de prédios, ruas movimentadas... Realmente era uma grande cidade que se perdia no horizonte e nos morros. 
Desceu do avião atordoada, e na realidade não sabia direito aonde estava e para onde deveria ir.  Conforme algumas instruções da professora Maria das Graças, Severina deveria ir para casa de uns parentes dela. Tudo estava escrito direitinho e bem detalhado como chegaria nesta casa.
A recomendação era pegar o ônibus 2018, do aeroporto ao terminal, e fazer tudo de acordo com o roteiro.
Severina sentou-se na janela e ficou maravilhada com o cenário que estava vendo: avenidas cheias de carros, prédios, praia, até um porto, cheio de navios (que nunca tinha visto). Seus olhos arregalados não tiravam o olhar da janela.
Ao final da tarde chegou ao seu destino. Estava extasiada, nunca imaginou que poderia ver tantas coisas bonitas e cheias de surpresa. A casa dos parentes era simples e de poucos cômodos, mas muito maior do que a casa em que vivia, e mais bonita. A dona da casa, Iracema, uma senhora de meia idade, cabelos esbranquiçados, corpo avantajado, veio receber a moça. Iracema, era prima em segundo grau da professora, e logo foi fazendo uma porção de perguntas. Cema, como gostava de ser chamada, tinha 2 filhas, uma quase da idade de Severina e um rapaz, o filho mais velho.
Foi-lhe indicado o local onde ficaria, no quarto das moças. Dormiu e sonhou...
Assim foram passando os dias, ela se acostumando, conversando com as moças, descobrindo as entranhas daquela cidade maravilhosa. Desviando dos olhares dos rapazes, sentiu a necessidade de ter dinheiro e foi procurar emprego. As meninas da Iracema disseram que ela usasse um nome mais curto e fácil de guardar. Foi assim que passou a chamar-se Mina.
Começou procurando nas lojinhas do bairro, afinal tinha um pouco de experiência conquistada no comércio do tio.
Assim passaram-se dias e nada de emprego. Tentou outras opções, como balconista em supermercados, e nada.
Mina já estava ficando desanimada, quando numa conversa com Cema resolveu ser empregada doméstica. A Maria das Graças tinha lhe ensinado o básico da educação e agora sua prima estava ensinado o que ela tinha que fazer como uma empregada. Procurou uma agência de empregos, que após fazer um questionário sem fim, explicou seus deveres e benefícios. A moça gostou do que ouviu e ficou animada.
Após uma semana e nenhuma notícia de emprego, quando estava ficando desanimada, recebeu um recado da agência que tinham lhe arranjado um serviço.  
Era uma segunda-feira ensolarada, quente, e Mina foi feliz a caminho do primeiro emprego.
A casa em que trabalhava tinha 9 cômodos, ali moravam a dona Margareth, as crianças Leonardo e Isabela e o seu Luciano,  o que deixava Severina bastante ocupada. Quando chegava em casa não queria saber de outra coisa a não ser descansar.
Tudo estava indo bem, recebeu o primeiro salário – “nossa nunca tinha visto tanto dinheiro”! A dona Margareth perdeu o emprego e Severina também.
Não demorou muito, arranjou um novo emprego.  Nesse novo emprego, mal havia passado duas semanas começou a ser assediada pelo dono da casa, de tal forma que teve que se afastar do serviço.
E é a partir daí que Mina tudo começa a mudar.
Parecia sina, mas esse fato começava a se repetir mais e mais vezes nos outros empregos. Se não era o patrão, era o filho mais velho, o tio, e sabe lá...
Além de bonita, Mina tinha uma voz levemente grave, e gostava de cantar.  A moça resolveu aprender a tocar violão. Aos finais de semana, embaixo de uma árvore, buscando uma brisa para se refrescar do calor imenso, costumava cantar a tarde toda, ao som do violão que havia comprado numa casa de móveis e utensílios usados.
Um dia Mina viu na televisão uma entrevista com uma jovem que “virou” homem. Falava de uma moça que cortou o cabelo e passou a se vestir como homem, vivia feliz, ainda fazia sucesso e tinha fãs em todo o Brasil. 
Mina ficou impressionada, cortou o cabelo bem curto e todos os dias se olhava no espelho e adorava o seu novo visual. E a entrevista não saia da sua cabeça.
Comprou uma calça, uma camiseta, botou um tênis e saiu a noite vestida de homem, sem que ninguém da casa visse. Começou até olhar para algumas jovens, recebia troca de olhares e entre os homens era totalmente desapercebida(o).
Continuava a trabalhar como empregada e se por ventura se sentisse assediada falava com sua voz meio grossa e assim afastava qualquer um que lhe importunasse.  Trabalhando e saindo a noite daquele jeito, Mina gostava de seu novo tipo, e bastou mais uma reportagem para mudar de vez a sua vida. A matéria sobre os sucessos de Drag Kings nos Estados Unidos. São mulheres que se vestem e agem como homem, incorporando um personagem do sexo masculino.
Muito aplicada e dedicada, Mina começou a estudar cada história daquela reportagem e a cantar as mesmas músicas. No início foi difícil por causa do inglês, mas foi aprendendo, treinando e ensaiando o que não demorou muito para dominar as músicas.
A moça tinha conseguido guardar um bom dinheiro e resolveu ir morar sozinha. Antes disso conversou com a Regina, filha mais velha da Cema, que tinha uma boa cabeça e com certeza iria entender os planos da jovem.
Regina não só entendeu, como deu alguns conselhos e disse que tinha um amigo que poderia ajudá-la no seu projeto.
Mina não perdeu tempo, foi procurar o amigo que a aconselhou que ela fosse morar mais próximo do centro do Rio de janeiro. Mudou! Ele virou o seu produtor e empresário. Em menos de seis meses a jovem estava pronta e fez a sua primeira apresentação. O que já no primeiro dia causou uma sensação na noite carioca.
Apesar das feições, Mina adotou um nome artístico, Christian Hart, em homenagem a reportagem e porque só cantava músicas em inglês. Decidiu que faria um Drag King bem masculino, maquiando uma barba rente ao rosto, sem exageros na caracterização, deixando a camisa branca semiaberta graças aos seus pequenos seios, calças de um tecido brilhante, botas e cintos chamativos. Forçava sua voz no tom rouco, levemente grave, o que aumentava essa sensação.
Após a primeira noite, a casa noturna sempre cheia e muitos convites para novas apresentações.  
O sucesso a levou para São Paulo, muitos shows e dali ...